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Lugares de Outrora – Oliveira do Bairro

Um homem conta uma história de infância quando lhe pergunto qual a memória mais feliz.
Conta uma, duas ou três.
Lembra-se dos amigos, da escola, das brincadeiras.

Já lá vão alguns anos desde que decidi começar as conversas assim.
Consigo quebrar o gelo, baixar a guarda do entrevistado, e claro, alimentar a minha curiosidade.

Com o Álvaro não foi diferente.
Encontrei-me com ele num jardim.
Agradeci ter-se encontrado comigo entre consultas médicas.
Apontei-lhe um banco branco de plástico, que trago sempre na mala do carro, e perguntei se podia colocar-lhe o microfone de lapela na camisa ao xadrez.

Charmoso e cheiroso.

Coloquei a voz e fiz a minha pergunta vencedora.
Ele fechou os olhos e disse com o tom mais sereno que consigam imaginar:
– “A minha memória mais feliz é o cheiro da palha do arroz.”

(…)

Em tantos quilómetros de estrada a entrevistar pessoas que viveram em tempos de outrora, eu já ouvi de tudo. Já sequei lágrimas, já ri até doer as bochechas, já me arrepiei e adormeci em desassossego.

Mas não estava preparada para isto.
Esta serenidade.
Este amor.

O Álvaro abriu os olhos pequeninos, escondidos debaixo dos óculos e falou-me do avô.
– “Sabe… eu fui criado pelo meu avô. Ele obrigava-me a ir com ele, todos os dias, trabalhar as terras. E isso fez-me homem!”

Mas eu não conseguia esquecer o arroz.
E assim começou a viagem.
Ele levou-me nas palavras até à eira do avô, onde o arroz era debulhado. Depois explicou-me ao pormenor como a palha era estendida nos caminhos de terra batida para secar.
E eu comecei a ver, a cheirar e a sorrir com ele.

– “Já passaram mais de 60 anos, e eu ainda consigo sentir esse cheiro.”
Totalmente entranhada no aroma, consegui dizer:
– “Eu também! Obrigada Álvaro.”